quarta-feira, 6 de julho de 2016

Bodas de beijinhos

Faz um mês

Que o Sim imperou sobre o Não

E o medo e incertezas se desfizeram

Como sob poderes de super-heróis

Que nunca deixaram de serem gente

Mas revestidos com o traço da coragem.

 

Foi assim que mudei de nome

De bairro... de casa... de vida

Para uma nova vida

Tão antiga em meus nobres sonhos

E orações pelas madrugadas.

 

O amor... o amor... 

Meu ilustre leitor

Tem seu tempo e autonomia

Como o sol, o mar, as estrelas, a vida

Mesmo que com sua fantasiosa face

De que o dominamos por completo.

 

E quando pensamos que ele não vem

Que a subjetividade é pessoal

Lá vem ele devagarinho

Com jeitinho e carinho

A nos remexer por dentro.

 

Como bolacha de infância

Segue meu coração de vagão

Transbordante pelo caminho da existência

Contando, agora, o tempo

Para logo trazer meu amor de volta.

 

Volto a ser criança

A correr pela casa

E a dividir o pão

A compartilhar mil sonhos

E infinitas projeções.

 

O outro... o outro... meu querido

Deixa de sê-lo um outro

Para ser uma mesma xícara.

Embora permanecendo com suas gravuras impressas

E as distintas funções do corpo e da alça.

 

E se a estação dos ventos chegará

Pouco importa para os recém amantes

Cujo presente com seu romance se faz marcar

Sob a a sabedoria de quem está aprendendo a perpetuar

A Felicidade Clandestina.

 

 

 

 

 

Visita à Neruda

La Sebastiana... cuja visita inesperada
Nem me passou pela memória.

Foste me cativando em cada degrau da escada

Em cada detalhe colecionado

Pelo seu ilustre construtor

Que deu ao velho um sentido de sublime.

 

Sob o chão, paredes e mobílias

Eis escancarada o valor agregado a cada coisa

Cujo tempo não os trocariam facilmente

Mas antes seria sua aliada 

No registro e constituição de valor

A perpetuar pela posteridade.

 

Eram sonhos bestas... 

Para nós contemporâneos nem durariam um ano

Escolher mobilias permanentes

Quadros permanentes

Amor permanente

Como aquele mesmo mar ali em frente.

 

Ouso-me a chegar frente a janela do quarto

E tentar ver com os teus olhos

Aquele sempre mar do pacífico

Ainda reluzente do mesmo sol

A escancarar, imponente, nossa passageira estadia pela vida

Enquanto perpetuas sob mesma forma e glamour.

 

Angustiada, volto-me para o interior do quarto

Intriga a olhar-me pelo clássico espelho

Tanto tempo usado por tua ilustre esposa

Agora a revelar-me numa face provisória

Refletido num espelho tão singular

Como antes refletiu inúmeros outros  rostos.

 

Os teus sapatos, Matilde

A sugerir tantos passos por ti dados

Em tantos cantos por onde estivestes

Até repousar naquele mesmo armário

Junto aos que realmente ficam:

Tuas roupas, camisolas e outros pertences... Agora de outros.

 

Mas lá não estava tuas risadas

Teus choros de meia noite

Teus ilustres convidados

Teu amor deitado na cama

Tuas juras de felicidade

E tua ansiedade diante do sublime relógio.

 

Mas na sala de estar

Está ainda a sublime arte do teu colecionador

A mesa decorada com teus coloridos copos...

A poltrona de onde saíram nobres leituras e escritos

Com ainda o teu desgastado apoio para os pés

Junto aos quadros históricos

A revelar a beleza da antiguidade para poucos jovens sábios.

 

Por fim, tuas paredes planejadas

Pintadas... retratadas... por alguém

Cujo tempo é contínuo e o significado imperioso

E a cultura do descarte ainda não chegou 

Por estes navios mercantes

Que ora só carregam sonhos e invenções humanas.

 

Volto-me para casa com a tua casa

Em minha cabeça de jovem literária

Porém noto que ela nunca foi tão vazia

Tão sem propósito... tão sem história

Tão moderna e fugaz

Como a tecnologia e a moderna vida.

 

Saudade me deu do que nunca tive

Mas do que sempre quis ter

O poeta é mesmo assim...

O avesso de tudo... o antes no depois...

Tentando bordar a vida e conservá-la nas paredes da existência

Enquanto paradoxalmente sabe que a vida é correr atrás do vento.

 

 

quinta-feira, 10 de março de 2016

Histérica


Viajante sem destino

Sem linhas traçadas

Que na imensidão do oceano

Faz o vento trazer-te

Para esta quente terra


Não te iludas a pensar

Que toda terra é terra

E a menina que lhe solta aos olhos

É como rede a te esperar

Para amparar-te em qualquer horário que chegas


A menina de cabelo ao vento

A levantar olhares por onde passa

É a mesma a velejar pelos oceanos

Onde as inúmeras possibilidades...liberdade...

A faz revelar o sublime encanto da histérica


E se nesta infinita corda bamba

Estás tu, perdido amante

A mergulhar neste mar profundo e escuro

Confuso em ver falhar constantemente

A tua falsa certeza de já a ter conquistado


Resta recuar-te a antiga areia da praia

Quente, segura e solitária

Ou a se aventurar, com constante dedicação,

Neste mar profundo e escuro

Que não demora a revelar suas fascinantes galés...


Felicidade.



sábado, 13 de fevereiro de 2016

Infinito



O mar e seu infinito 
A indefinir minha vida
A refletir imenso passado perdido
E um futuro tão impalpável 

As crianças e velhos brincando 
Com o vento, com a vida
Enquanto só aprendi a brincar
Com o trabalho e a mente reflexiva  

O sol vai esquentando sobremaneira
A queimar meu rosto, minhas pernas, minha esperança 
O frio que só aparece internamente 
Preferencialmente nas noites solitárias 

Cercada pela família 
Por namorado tão indiferente 
A este mundo tão realista e perverso
A prometer o que a educação nunca dará 

E eu, a menina dos livros, dos diplomas colecionáveis 
A viver a solidão e a constância 
De um trabalho mediocre em quatro paredes 
Enquanto a mídia vai espalhando a utopia do sucesso garantido