sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Histeria

 
Amo vê-la numa polaridade desmedida
Numa intensidade inebriante
Com esse corpo sob medida
E sensualidade extravagante.

Amo vê-la na paixão alucinante
E tempestiva de um olhar... uma semana
Imersa no posterior medo dominante
A fabricar desejos, louca Ana.

Com essa ilusão frenética no saber
Vais colocando o mundo nos teus domínios
Para depois, só por prazer
Jogá-lo ao espaço de tristes caminhos.

O que queres?
Nunca soube apreender
Pois como raio no horizonte
Eis seu estrondo logo ao aparecer.

Por que brincas com desejos
Pobre menina inconstante?!
Se ficas no limiar
E nunca ousas ir adiante.

Não precisas dizer mais nada
Eis que longe tiro a bélica graça
Até que no universo do receio
Vais brincando de mexer desejos...

Minha histérica!

Paul Karter

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Ambiciosa

Quero um lugar tranquilo
Onde a mata perpasse a cidade
E as flores no verão prosperem.

Quero uma ocupação
Em que as horas não se notem
E a vida sentido ganhe.

Quero um bem
Cujas mãos minha cintura perpasse
E os seus olhos ganhe-me encanto.

Quero um amor
Cujo coração se alegre
Em só caminhar por simples parque

E numa cadeira de balanço
Compartilhe um livro
Como preço de um palácio
Preciosidade de diamante.

Quero um homem
Cuja sabedoria vale mais que a materialidade
E cujos olhos não tenham aprendido
A ofuscar a simples felicidade.

Então, convidar-te-ei a passear no campo
A fazer piquenique em qualquer mato
E em teu colo fabricar felicidade
Enquanto a materialidade lentamente se alcança.

E numa tarde fresca
Ficaremos num aberto campo
A compartilhar um café colonial
Enquanto aguardamos as estrelas que surgem.


Rosy Sales

Vida Nordestina

Pequenina
De sonhos noturnos
Que a brisa forte
Da manhã dispersa

Os sonhos
Que um dia tivera
E que hoje a poeira
Encobrindo-os, impera.

Na ausência de lágrimas
Em seca nordestina
Impera a dor
No peito da menina.

Vida que não cresce
Na ausência de vitaminas
Segue andante, sem destino
A pobre pequenina.

Riquezas em novelas
Sonhos tardios
Vê-se cada vez mais escasseados
A riqueza dos anos infantis.

Donde em terra de ouro
O capital impera
Rompe o grito angustiante
De não poder ser, aquela menina.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Preciosidade

Como agua que se esvai
Entre meus grossos dedos
Eis o tesouro para um coração ferido
Se esvaindo...
Enquanto, distanciando-me

Começo a notar o brilho de uma pedra cintilante
Brilhante e com valor antes inestimável.

Na mistura entre as aguas doce
E salgada de meus cansados olhos
Eis a emoção, de novo, transbordando
Desesperadamente, por um tesouro
Que a agua eis a levar.

Enquanto, incassavelmente
Elevo o olhar para cima
Numa vã tentativa de voltar no tempo
E reter o que antes nem sabia possuir...

As voltas da agua vão dos pés tirando
O sustento e a posição
Que algum dia sustentou, por segundos
A beleza e o extase do contato com a preciosidade.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

 Tédio

A imposição implícita da normalidade
Silencia minha alma
Com a sensação de quietude
E uma angústia sentenciada.

Vais a passar a rua
Atravessar as paredes do trabalho
Penetrar nos espaços dos lares
Circular nos arredores do meu quarto.

Traz aos meus dias a previsibilidade
Com os clichês, costumes e guias de etiqueta.
Afasta-me das diversidades de dons
Enquanto, paradoxalmente, apresenta-se as incontáveis plaquetas.

São poucos na arte, na tradição, na retórica
E multidões de chapeleiros no mercado.
Poucos que se perdem nas folhas amareladas
Imensidões que se acham entre os cordo~es do populacho.

E entre os saltos palpitantes
Ei-los na fantasia da alegria constantina
Enquanto os melancólicos visionários a inventar o sofrer
Diante da imensa produção de felicidade clandestina.

Rosineide Sales

Sorria, Rosy
Enquanto o saber é enfadonho
E as páginas amareladas em que vives
Não resgatam o brilho e a vivacidade da árvore.

Antes do saber, havia a sensação
Antes da página, a mata
Anterior ao mundo virtual, o real
O real... sempre houve este inalcançável.

Para que buscá-lo... decifrá-lo?
É preciso ser sábio para abandonar a sabedoria
E no regresso do querer quase nada
Encontrar o tudo... a vida.

Como um presente que não se espera ganhar
Eis o que o tato, o olfato, o sentir... valerá
Na regressão ao toque na velha relva molhada.
Os olhos descompromissados, na manhã, nascem.

E se, na loucura do amanhã, sonhar com o passado
Melhor é parar no tempo... presente.
Pois o tempo, esse ser imperdoável
Só se eternizará com as sensações de um apaixonado.

                        Rhiandra Marim
Soberania

O poder, o cargo, o sistema
Eles mesmos me fascinam
Como observador anônimo
Eis-me a me deliciar
Com o que ele propicia-me.

Tão imponentes, grandiosos
Como donos da justiça, da vida e da morte
Imortais, em pele de gente
Imperiosos, invencíveis, singulares e eternos.

A perpendicularidade do queixo
A postura saudável de um imponente.
Como quem passa a tropa em revista
A render-lhes continência.

Tropas …. e tropas... fardados.
Imensidões deles nos campos, nas cidades, nas batalhas
Imensidões ao caminho da morte, devotos, treinados, governados.
Imensidões tornando-se incapacitados, coxos, mudos, cegos, abobalhados.

Nesse ponto, duvidoso fico
Quanto a direcionalidade do meu olhar.
Tão juntos no espaço... separados por cordas invisíveis.
E você, Maria, em meio a eles, quase imperceptível
Se não fosse a insignificância algo paradoxalmente notável.

Com sua histeria sem mais graça, sem  mais força
A gritar na rua, a chorar em casa, a espernear no palco
E se tens alguma arte é a de palhaço
E como espectador, vou rindo da ingenuidade
De quem vai se pintando, dançando, vestindo... seus próprios trajes.

                                Paul Karter

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Eterno deserto

O verão chegou
Se firmou
Não passou
Nunca me deixou.

Imponente
Mais que sempre
Incendiou meu coração
Minha casa de ranchão
Meu barraco, moradia.

Secou a lagoa de casa
A água que bebia.
Secou as árvores de minha mocidade,
Matou os pés de feijão que comia.

Meus pés,
Marcados à rachas.
Descalços ao infinito
Empoeirados...

Meu cabelo
Ao vento...
Vento seco...
Seco e descuidado.

O outono chegou
O outono passou
Despercebido
Sob o império do grande sol.

E quando dei por mim
Fazia um pouco de frio
Estava do lado de fora
Atrás do nada.

Ou antes estava
Com frio de dentro
Do medo de dentro
Que só uma beduína conhece

Beduína de dura vida
De longos desertos...
A aprender a dança do desejo
Quando na eternidade do verão
O inverno nunca chega.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Futilidades


A futilidade é minha arte
De todas, a favorita.
A futilidade é minha vida
Cada vez mais intensa.

A futilidade que coloca em mim
O brilho de um romance antes opaco.
Que me eleva sob os saltos de seus sapatos
E me colore como uma gueixa
A despertar a arte da sedução.

A futilidade pinta meus dias
Clareia em verde meus olhos.
E traz cor ao meu velho espelho de quarto...
Pinta de vermelho meus antigos lábios
E me eleva, sob olhares,
Com suas vestes a transformar-me em astro.

E é a essa futilidade
A minha alegria constante
Que em meio ao tempo de fugacidade
Faz-me criar felicidade.

Futilidade que me incendeia
E apaixona meros mortais racionalizados
Que sob discursos importantes
Lutam eternamente para não concluir
Que a vida é de essência, futilidade.

E eu...
Que não sou boba a viver discursos
Nem ligo para opiniões contrárias
Vou vivendo em minhas futilidades
Caindo e levantando a cara
Porque o importante mesmo
É ser fútil
Expressão viva e sublime
De uma existência libertária.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Dança da vida


Quero hoje a praia
Mesmo que chova.
Quero a esperança do amanhã
Mesmo que as horas demorem a passar.

Quero um beijo
Em fotografia colorida
Para que possa eternizá-lo
Em vivência bem presente.

Quero a comida mais saborosa
A graça do saboreio
Para que não se perca nenhum traço
Da felicidade passageira e pitoresca.

E no final da tarde
Depois de uma dança à prenda
Possa descansar em doce rede
A reviver o que no dia foi escape.