segunda-feira, 30 de julho de 2012

 Tédio

A imposição implícita da normalidade
Silencia minha alma
Com a sensação de quietude
E uma angústia sentenciada.

Vais a passar a rua
Atravessar as paredes do trabalho
Penetrar nos espaços dos lares
Circular nos arredores do meu quarto.

Traz aos meus dias a previsibilidade
Com os clichês, costumes e guias de etiqueta.
Afasta-me das diversidades de dons
Enquanto, paradoxalmente, apresenta-se as incontáveis plaquetas.

São poucos na arte, na tradição, na retórica
E multidões de chapeleiros no mercado.
Poucos que se perdem nas folhas amareladas
Imensidões que se acham entre os cordo~es do populacho.

E entre os saltos palpitantes
Ei-los na fantasia da alegria constantina
Enquanto os melancólicos visionários a inventar o sofrer
Diante da imensa produção de felicidade clandestina.

Rosineide Sales

Sorria, Rosy
Enquanto o saber é enfadonho
E as páginas amareladas em que vives
Não resgatam o brilho e a vivacidade da árvore.

Antes do saber, havia a sensação
Antes da página, a mata
Anterior ao mundo virtual, o real
O real... sempre houve este inalcançável.

Para que buscá-lo... decifrá-lo?
É preciso ser sábio para abandonar a sabedoria
E no regresso do querer quase nada
Encontrar o tudo... a vida.

Como um presente que não se espera ganhar
Eis o que o tato, o olfato, o sentir... valerá
Na regressão ao toque na velha relva molhada.
Os olhos descompromissados, na manhã, nascem.

E se, na loucura do amanhã, sonhar com o passado
Melhor é parar no tempo... presente.
Pois o tempo, esse ser imperdoável
Só se eternizará com as sensações de um apaixonado.

                        Rhiandra Marim
Soberania

O poder, o cargo, o sistema
Eles mesmos me fascinam
Como observador anônimo
Eis-me a me deliciar
Com o que ele propicia-me.

Tão imponentes, grandiosos
Como donos da justiça, da vida e da morte
Imortais, em pele de gente
Imperiosos, invencíveis, singulares e eternos.

A perpendicularidade do queixo
A postura saudável de um imponente.
Como quem passa a tropa em revista
A render-lhes continência.

Tropas …. e tropas... fardados.
Imensidões deles nos campos, nas cidades, nas batalhas
Imensidões ao caminho da morte, devotos, treinados, governados.
Imensidões tornando-se incapacitados, coxos, mudos, cegos, abobalhados.

Nesse ponto, duvidoso fico
Quanto a direcionalidade do meu olhar.
Tão juntos no espaço... separados por cordas invisíveis.
E você, Maria, em meio a eles, quase imperceptível
Se não fosse a insignificância algo paradoxalmente notável.

Com sua histeria sem mais graça, sem  mais força
A gritar na rua, a chorar em casa, a espernear no palco
E se tens alguma arte é a de palhaço
E como espectador, vou rindo da ingenuidade
De quem vai se pintando, dançando, vestindo... seus próprios trajes.

                                Paul Karter