terça-feira, 22 de novembro de 2011


Loba

Sou filha do mato
Da solidão do poente
Que não mais que de repente
Vê-se enclausurada.

De início,
Com brasa marcada
A levar eternamente
A marca da cultura mercantilizada.

Sou a loba
Repleta de intuição
De complexa cognição
E pouca maldade.

Carrego no peito
O sentimento materno
Mesmo sem ser ainda mãe
Só loba.

E meio confusa
No tempo e espaço
Sigo cambaleante
Como um bêbado desgovernado.

Sem a corrente de antes
Externalizada
Sigo presa a moralidade
Agora culturalmente impregnada.

E perdida entre discursos
E visões contraditórias
Sigo atordoada
Sem saber nem ser gente.

Mas eu sou...
Deveria ser...
Poderia continuar sendo...
Fui...

Só loba.

sábado, 20 de agosto de 2011

Não importa!


Não quero a metade
Eu o quero inteiro!

Não me importa, enquanto isso,
Ser sozinha;

Se a solidão é a experiência
Que se leva a certeza da falta.

Não me importa o tempo
Se dentro de mim
Permanecer a fonte da juventude.

Não me importa
Meus medos histéricos
Se eles me levarem ao desejo de dependência.

E já não me importará
Viver a dependência
Sob essa cultura narcisista...

Se no final das contas
Somente os amantes vivem
A sublimidade dos pequenos momentos.

E a dançarina consegue dançar
Sob as curvas e olhares
A fabricar... desejos!

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Eis-me


A maioria das pessoas
Parece nascer artistas.
São tão equilibradas
Tão corajosas diante da vida
Que em decisões necessárias
Nem cambaleiam para agirem.

São tão alegres
E constantemente felizes
São tão positivistas
E tão de bem com a vida...

Mas eis que nem nisso me enquadro.
Sou tão medrosa
Que adio intempestivamente
As decisões que deveriam ser do hoje.

E sou tão inconstante
Que sou capaz de amar tanto hoje
E acordar, amanhã,
Duvidando dessa emotividade.

E em meio às lutas para perfeição
Deparo-me, sempre,
Com a cara marcada
Riscos de uma queda imperfeita.

E, finalmente,
Quando chega a hora da apresentação
No palco da vida...
Lá vou eu esquecendo os treinos
E revelando minha cara limpa
Que não sabe representar quase nada.

Sob muitas troças
E quase dois aplausos
Saio do palco
Com a cara de palhaça.

E como não se dá para brincar
Com os adultos sublimes
Famosos e glamorosos...

Lá vou eu me lambuzar
Com as doçuras de criança
Numa praça qualquer ...
Em balanço outrora usado.

E no vai e vem
Do brinquedo revelado
Lá vou eu...
A ir e voltar
Como nos sonhos da vida.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Sereia




Estou cansada...
Cansada das vestimentas humanas
Todas moralmente idealizadas.

Cansada de ser gente
Em pele de gente
A esconder minhas escamas
Originalidade.

Já não sei sentir o chão
Nadar só como antes.
Já não sei não falar.
Já não sei me despir
Sem a sensação de erro.
Já não sei ser...
Além do nome que me deram.

Com meu casaco de gente
Vou andando pelas ruas
Com andadas sempre vacilantes...
Ruas cheias de seres vacilantes...
Parecendo gente.

Com veste de gente
Vou deixando à mostra
Cada vez menos minha calda
Minha ancestralidade...
Meus instintos...
Meus desejos...
Minha amoralidade
Eu mesma!

E eis-me aqui...
Num espaço construído por outros...
Num mundo que foi me dado
Com costumes sempre passados
Com nome que me foi delegado...
Sendo gente...
E cada vez menos bicho.

Pera!
Preciso mergulhar!
É tempo de ser... peixe!

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Dame marie

Dame Maria
When you will be
Master of your life?

Even when you will invent
unconscious kisses
Lover do not know.

Invisible Castle
beloved books
Advanced profession

And lost yourself
In your own philosophy
That picture is that we be

When you will exchang
Paper for meat
Dreams a reality?

Go out! Maria
Extends their hand
To other arms:
Opened Arms!

And close the eyes
For one who is blind
Who loses courage
To reveal your charms.

So... you will be
The dame Marie
Owner...
Beyond of yourself...
Owner...
Of other live.

domingo, 12 de junho de 2011


A dança

Sou a bailarina
Cuja dança não se vê
Fora de meu palco encantado.

Encantado
Seja porque a criei
Seja porque não saiba ser outro

Mas o que me ameaça
Não é o palco que eu criara
Mas o dia que outros criam

Dia como dos apaixonados
Só para ter a sensação
De que se é sozinho
No palco da vida.

Tenho duas mãos
Dois pés...
Um corpo completo
Mas incompleto.

Olho-me
E não vejo falta de nada
Só a sinto, intensamente,
Quando danço a vida.

Como um tango argentino
Eis a vida
Que não se pode dançar só.

Pois na dança
São dois
E não são dois:
É outra parte de mim mesma.

E eis os passos
Descompassados
Que nos tiram da dança
Derrepente.

Que nos desloca da perfeição
E nos afasta
Do parceiro,
Antes acoplado, uno.

E ao menos
Que não insista em acertá-la
Tentando...
Voltar aos passos...
Ou criar outros...

Ficarei de fora
Do espetáculo
Da dança
Que sempre fora minha.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Convite



Quando a vida se mostra incerta
O que ás de querer?
O que ás de prever?
Por que ás de sonhar?

Ah, amado...
Ponha os pés no chão
E se quiseres,
Dai-me um abraço
Mas não fale nada...
Pouco é preciso.

E vais andar descalco
Pela rua
Pela vida.

Restitui a crianca perdida
As flores caidas
A estrada de barro.

Deixe em casa o relógio
Se o tempo não existe.
E a vida virtual
Se somos só de carne.

Venha. Pegue em minhas mãos ásperas
De quem trabalha na terra.
Deixe de lado sua filosofia
Inservível para os mortais.

Tenho que mostrar-te os leoes que não conheces
As flores que não cheirastes
Os amores que não provastes
A vida de que tanto se passou.

O nascer do sol que nunca viste
O capim que nunca amassastes
E a lua sob a qual nunca amastes.

E talvez, no final da caminhada
Note a ausencia do caminho
E a presença da falta

Falta que nunca deixa de ter
De ser
O elemento do desejo
O combustível da vida.

Moldura



O retrato em minha sala
Vez em quando me intriga
Por sua moldura de prata
Que acrescentou em mim
Imagem de fantástico.

Moldura que deixou de fora
Meus papeizinhos enrolados
Meu grito do dia-a-dia
Meu medo de acordar.

Cortou de mim
As mãos sem aliança
Os pés descalços
Os joelhos marcados.

Da foto tirada
Fez-se moldura, cortada.
Em quadro moldado
A mão de artista hábil.

Moldado a um rosto sem rugas
A face sem as olheiras de ontem
Sem o sem-sorriso de sempre
A brilhar pelo flash.

Agora, eis eu aqui em frente
Desse retrato retratado
Eu e tu, em paralelas, retrato,
Em linhas que nunca se cruzam.