quarta-feira, 6 de julho de 2016

Visita à Neruda

La Sebastiana... cuja visita inesperada
Nem me passou pela memória.

Foste me cativando em cada degrau da escada

Em cada detalhe colecionado

Pelo seu ilustre construtor

Que deu ao velho um sentido de sublime.

 

Sob o chão, paredes e mobílias

Eis escancarada o valor agregado a cada coisa

Cujo tempo não os trocariam facilmente

Mas antes seria sua aliada 

No registro e constituição de valor

A perpetuar pela posteridade.

 

Eram sonhos bestas... 

Para nós contemporâneos nem durariam um ano

Escolher mobilias permanentes

Quadros permanentes

Amor permanente

Como aquele mesmo mar ali em frente.

 

Ouso-me a chegar frente a janela do quarto

E tentar ver com os teus olhos

Aquele sempre mar do pacífico

Ainda reluzente do mesmo sol

A escancarar, imponente, nossa passageira estadia pela vida

Enquanto perpetuas sob mesma forma e glamour.

 

Angustiada, volto-me para o interior do quarto

Intriga a olhar-me pelo clássico espelho

Tanto tempo usado por tua ilustre esposa

Agora a revelar-me numa face provisória

Refletido num espelho tão singular

Como antes refletiu inúmeros outros  rostos.

 

Os teus sapatos, Matilde

A sugerir tantos passos por ti dados

Em tantos cantos por onde estivestes

Até repousar naquele mesmo armário

Junto aos que realmente ficam:

Tuas roupas, camisolas e outros pertences... Agora de outros.

 

Mas lá não estava tuas risadas

Teus choros de meia noite

Teus ilustres convidados

Teu amor deitado na cama

Tuas juras de felicidade

E tua ansiedade diante do sublime relógio.

 

Mas na sala de estar

Está ainda a sublime arte do teu colecionador

A mesa decorada com teus coloridos copos...

A poltrona de onde saíram nobres leituras e escritos

Com ainda o teu desgastado apoio para os pés

Junto aos quadros históricos

A revelar a beleza da antiguidade para poucos jovens sábios.

 

Por fim, tuas paredes planejadas

Pintadas... retratadas... por alguém

Cujo tempo é contínuo e o significado imperioso

E a cultura do descarte ainda não chegou 

Por estes navios mercantes

Que ora só carregam sonhos e invenções humanas.

 

Volto-me para casa com a tua casa

Em minha cabeça de jovem literária

Porém noto que ela nunca foi tão vazia

Tão sem propósito... tão sem história

Tão moderna e fugaz

Como a tecnologia e a moderna vida.

 

Saudade me deu do que nunca tive

Mas do que sempre quis ter

O poeta é mesmo assim...

O avesso de tudo... o antes no depois...

Tentando bordar a vida e conservá-la nas paredes da existência

Enquanto paradoxalmente sabe que a vida é correr atrás do vento.

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário