Foste me cativando em cada degrau da escada
Em cada detalhe colecionado
Pelo seu ilustre construtor
Que deu ao velho um sentido de sublime.
Sob o chão, paredes e mobílias
Eis escancarada o valor agregado a cada coisa
Cujo tempo não os trocariam facilmente
Mas antes seria sua aliada
No registro e constituição de valor
A perpetuar pela posteridade.
Eram sonhos bestas...
Para nós contemporâneos nem durariam um ano
Escolher mobilias permanentes
Quadros permanentes
Amor permanente
Como aquele mesmo mar ali em frente.
Ouso-me a chegar frente a janela do quarto
E tentar ver com os teus olhos
Aquele sempre mar do pacífico
Ainda reluzente do mesmo sol
A escancarar, imponente, nossa passageira estadia pela vida
Enquanto perpetuas sob mesma forma e glamour.
Angustiada, volto-me para o interior do quarto
Intriga a olhar-me pelo clássico espelho
Tanto tempo usado por tua ilustre esposa
Agora a revelar-me numa face provisória
Refletido num espelho tão singular
Como antes refletiu inúmeros outros rostos.
Os teus sapatos, Matilde
A sugerir tantos passos por ti dados
Em tantos cantos por onde estivestes
Até repousar naquele mesmo armário
Junto aos que realmente ficam:
Tuas roupas, camisolas e outros pertences... Agora de outros.
Mas lá não estava tuas risadas
Teus choros de meia noite
Teus ilustres convidados
Teu amor deitado na cama
Tuas juras de felicidade
E tua ansiedade diante do sublime relógio.
Mas na sala de estar
Está ainda a sublime arte do teu colecionador
A mesa decorada com teus coloridos copos...
A poltrona de onde saíram nobres leituras e escritos
Com ainda o teu desgastado apoio para os pés
Junto aos quadros históricos
A revelar a beleza da antiguidade para poucos jovens sábios.
Por fim, tuas paredes planejadas
Pintadas... retratadas... por alguém
Cujo tempo é contínuo e o significado imperioso
E a cultura do descarte ainda não chegou
Por estes navios mercantes
Que ora só carregam sonhos e invenções humanas.
Volto-me para casa com a tua casa
Em minha cabeça de jovem literária
Porém noto que ela nunca foi tão vazia
Tão sem propósito... tão sem história
Tão moderna e fugaz
Como a tecnologia e a moderna vida.
Saudade me deu do que nunca tive
Mas do que sempre quis ter
O poeta é mesmo assim...
O avesso de tudo... o antes no depois...
Tentando bordar a vida e conservá-la nas paredes da existência
Enquanto paradoxalmente sabe que a vida é correr atrás do vento.

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