quarta-feira, 29 de junho de 2011

Sereia




Estou cansada...
Cansada das vestimentas humanas
Todas moralmente idealizadas.

Cansada de ser gente
Em pele de gente
A esconder minhas escamas
Originalidade.

Já não sei sentir o chão
Nadar só como antes.
Já não sei não falar.
Já não sei me despir
Sem a sensação de erro.
Já não sei ser...
Além do nome que me deram.

Com meu casaco de gente
Vou andando pelas ruas
Com andadas sempre vacilantes...
Ruas cheias de seres vacilantes...
Parecendo gente.

Com veste de gente
Vou deixando à mostra
Cada vez menos minha calda
Minha ancestralidade...
Meus instintos...
Meus desejos...
Minha amoralidade
Eu mesma!

E eis-me aqui...
Num espaço construído por outros...
Num mundo que foi me dado
Com costumes sempre passados
Com nome que me foi delegado...
Sendo gente...
E cada vez menos bicho.

Pera!
Preciso mergulhar!
É tempo de ser... peixe!

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Dame marie

Dame Maria
When you will be
Master of your life?

Even when you will invent
unconscious kisses
Lover do not know.

Invisible Castle
beloved books
Advanced profession

And lost yourself
In your own philosophy
That picture is that we be

When you will exchang
Paper for meat
Dreams a reality?

Go out! Maria
Extends their hand
To other arms:
Opened Arms!

And close the eyes
For one who is blind
Who loses courage
To reveal your charms.

So... you will be
The dame Marie
Owner...
Beyond of yourself...
Owner...
Of other live.

domingo, 12 de junho de 2011


A dança

Sou a bailarina
Cuja dança não se vê
Fora de meu palco encantado.

Encantado
Seja porque a criei
Seja porque não saiba ser outro

Mas o que me ameaça
Não é o palco que eu criara
Mas o dia que outros criam

Dia como dos apaixonados
Só para ter a sensação
De que se é sozinho
No palco da vida.

Tenho duas mãos
Dois pés...
Um corpo completo
Mas incompleto.

Olho-me
E não vejo falta de nada
Só a sinto, intensamente,
Quando danço a vida.

Como um tango argentino
Eis a vida
Que não se pode dançar só.

Pois na dança
São dois
E não são dois:
É outra parte de mim mesma.

E eis os passos
Descompassados
Que nos tiram da dança
Derrepente.

Que nos desloca da perfeição
E nos afasta
Do parceiro,
Antes acoplado, uno.

E ao menos
Que não insista em acertá-la
Tentando...
Voltar aos passos...
Ou criar outros...

Ficarei de fora
Do espetáculo
Da dança
Que sempre fora minha.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Convite



Quando a vida se mostra incerta
O que ás de querer?
O que ás de prever?
Por que ás de sonhar?

Ah, amado...
Ponha os pés no chão
E se quiseres,
Dai-me um abraço
Mas não fale nada...
Pouco é preciso.

E vais andar descalco
Pela rua
Pela vida.

Restitui a crianca perdida
As flores caidas
A estrada de barro.

Deixe em casa o relógio
Se o tempo não existe.
E a vida virtual
Se somos só de carne.

Venha. Pegue em minhas mãos ásperas
De quem trabalha na terra.
Deixe de lado sua filosofia
Inservível para os mortais.

Tenho que mostrar-te os leoes que não conheces
As flores que não cheirastes
Os amores que não provastes
A vida de que tanto se passou.

O nascer do sol que nunca viste
O capim que nunca amassastes
E a lua sob a qual nunca amastes.

E talvez, no final da caminhada
Note a ausencia do caminho
E a presença da falta

Falta que nunca deixa de ter
De ser
O elemento do desejo
O combustível da vida.

Moldura



O retrato em minha sala
Vez em quando me intriga
Por sua moldura de prata
Que acrescentou em mim
Imagem de fantástico.

Moldura que deixou de fora
Meus papeizinhos enrolados
Meu grito do dia-a-dia
Meu medo de acordar.

Cortou de mim
As mãos sem aliança
Os pés descalços
Os joelhos marcados.

Da foto tirada
Fez-se moldura, cortada.
Em quadro moldado
A mão de artista hábil.

Moldado a um rosto sem rugas
A face sem as olheiras de ontem
Sem o sem-sorriso de sempre
A brilhar pelo flash.

Agora, eis eu aqui em frente
Desse retrato retratado
Eu e tu, em paralelas, retrato,
Em linhas que nunca se cruzam.