sexta-feira, 16 de janeiro de 2009



Aspecto do amar

Em meu espelho
Vejo uma cama vazia...
E o corpo de uma mulher
Descalça
Com roupa antiquada
Cabisbaixa
Com seus longos cabelos...

A noite está fria
E o coração ainda quente
Anda apertado...
Amarrado em tiras vermelhas

Com o semblante abandonado.

No chão algumas lágrimas
De quem perdeu algo.
No relógio
O tempo não passa...
O cabelo não desembaraça...
A esperança teima a não morrer.

Mulher teimosa
Nunca aprendestes a não amar,
Nunca deixas de esperar
Por um trem que nunca pára.

Mas eu sou a mulher
Que não mais consegue se ver no espelho
Que estou a parar
Que estou a morrer
Que não aprendi a viver.

Descalça,
Sinto o chão em brasa
Sob meus pés sensíveis
Ridículos!
Que não sabem para onde vão.

Por que larguei meu rumo
Para pistas que nunca andei?
Infeliz que sou
Pensei ser a felicidade.

Acabei sem pistas
Acabei sem mim
Acabei só um resto de mim.

Amei a rosa
Mas não sabia que o espinho fazia parte
E cada dia a me cortar
A me dividir
A me diminuir
Rasgando um coração de papel
Riscando-o com cores sombrias
Que nenhuma tinta apaga.

Com as mãos machucadas dos espinhos
Só existem lembranças da rosa,
A perfurar as feridas.

Com o coração partido
A vida me abandona
Só existe o resto do olhar
Um olhar sem brilho
Como um dia nublado.

E eis eu ali...
Pequena mulher
A sumir...
A se fechar
Num último ofício de quem

Nao mais tem por quem esperar.

Sem caminhos
Sem pés...sem braços...
Não há o que se esperar
Somente que os cacos se juntem
E sobre ainda
Algum resto de mulher
Algum motivo de vida
Alguma razão de sonhar.

Mas sem esperanças
Só me resta o fechar

O pentear

Como ofício a preparar
O aceno para a infinita partida
Sonhando em desejar o que nunca pode
Que o amor não volte
Nunca mais...

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